Mobilização Social

por Antonio Lino Pinto Jr

Em meados dos anos 70, dois caciques da nação xavante vieram visitar a cidade de São Paulo. Levados para passear, os índios andaram de metrô, caminharam pela Avenida Paulista, foram ao shopping center e conheceram o mercado municipal, abrigado num prédio histórico no centro da capital paulista.

Os caciques, que mediam a riqueza pela quantidade de alimento disponível para a tribo, e não pela quantidade de dinheiro, ficaram boquiabertos com as pilhas e pilhas de frutas, legumes, cereais e verduras.

Começaram a andar por entre as pilhas e caixas até que um deles parou diante de um menino de uns 10 anos de idade que catava do chão verduras e frutas amassadas, es- tragadas e sujas, e as colocava num saquinho plástico.

O diálogo que se segue, entre o índio e as pessoas que o acompanhavam, é relatado pelo filósofo e educador Mário Sérgio Cortella:

“O que ele está fazendo?, perguntou o cacique. A resposta foi a “óbvia”: Ele está pegando comida. O cacique ficou meio pensativo e voltou a perguntar: Não entendi. Por que o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta coisa boa nas pilhas e caixas? Outra resposta evidente: Porque para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro. Insiste o xavante: E por que ele não tem dinheiro? Réplica enfadonha do civilizado: Porque ele é criança! Torna o índio: E o pai dele? Tem dinheiro? Outra obviedade: Não; não tem. Questão final: Então, não entendi de novo. Por que você que é grande tem dinheiro e o pai do menino, que também é, não tem? A única saída possível foi responder: Porque aqui é assim!”

O relato, como adverte o próprio Cortella, não tem pretensões moralistas e nem é sua intenção exaltar um modelo indígena de existência. Na verdade, ele serve para ilustrar e ressaltar um aspecto muito perverso, e ainda muito atual, da cultura do nosso país.

O Brasil sempre esteve entre as 10 maiores economias do planeta. Ao mesmo tempo, mais de 50 milhões de brasileiros vivem hoje abaixo da linha da pobreza, com acesso precário ao mínimo necessário para a sua sobrevivência. Ou seja, o “bolo” cresceu, mas não foi repartido igualmente entre todos.

Acontece que tão ou mais sério do que as consequências dessa desigualdade é o jeito como os brasileiros as encaram. Muitas vezes graves problemas sociais passam desapercebidos ou são tratados como fatos irremediáveis, impasses cuja solução virá do céu ou simplesmente não virá.

Em outras palavras, a iniciativa dos brasileiros parece estar adormecida. Muita gente está de braços cruzados, debruçada na janela vendo a história passar. E quando passam os problemas graves diante dos seus olhos, essas pessoas acham tudo normal, como se não tivesse outro jeito e como se não pudéssemos fazer nada para melhorar a situação.

Uma pesquisa da ONG Ação Educativa com- prova a gravidade da situação: cerca de 85% dos brasileiros não exercem nenhum tipo de participação direta além do voto.

Além de não participar, um recente estudo do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostra que os brasileiros confiam pouco na democracia: entre 18 países pesquisados, o Brasil ficou em 15o lugar no nível da adesão de sua população aos princípios democráticos. Nesse estudo, 54,7% dos entrevistados apoiaria um go- verno autoritário se ele resolvesse problemas econômicos.

A raiz dessa passividade está no processo de formação do país. Se formos estudar nossa história, como fez o Prof. Antonio Carlos Gomes da Costa, provavelmente chegaremos à mesma conclusão que ele: ainda que tenham acontecido diversos e significativos movimentos de contestação e levantes populares nesses últimos 500 anos, os rumos do Brasil, em geral, sempre foram ditados “de fora para dentro e de cima para baixo”.

Como ensina o Professor, a primeira universidade brasileira foi criada em 1922, pra receber o Rei da Bélgica e dar a ele um título de Doutor Honoris Causa. As primeiras gráficas do país só surgiram quando o Rei de Portugal veio até aqui.

Enfim, poderíamos apelar para vários episódios históricos como forma de ilustrar esse processo em que o povo brasileiro foi se acostumando à inércia de esperar tudo de cima.

A boa notícia é que essa história está mudando.

Nos últimos 20 anos, livre das amarras da ditadura militar, a sociedade brasileira vem se organizando para assumir as rédeas do país. Tudo indica que vivemos uma época de mudanças. Ou talvez, como acredita Frei Betto, uma mudança de época.

O 3o setor cresce a olhos vistos. Os movimentos sociais estão se fortalecendo. As empresas começam a acordar para a importância da responsabilidade social. Os jovens brasileiros estão cada vez mais conscientes e motivados para fazer alguma coisa pelo país. Enfim, muita gente está descruzando os braços e arregaçando as mangas para construir um país mais democrático, em que todos possam desfrutar de uma vida digna.

Acontece que nem sempre é fácil nadar contra a correnteza da história. E casos que comprovam essa dificuldade podem ser encontrados ao longo de todo território nacional.

Casos como o bem intencionado prefeito de uma pequena cidade do interior, que quando se candidatou já sabia que os cofres estavam vazios e a cidade cheia de problemas. Todo dia ele gasta boa parte do tempo tentando explicar para a população que a prefeitura não vai dar conta de tudo sozinha, que ele precisa da ajuda de todos. Mas não adianta. Onde ele vai tem uma fila de pessoas atrás querendo pedir alguma coisa. O pessoal está esperando uma solução!

Ou o caso de uma diretora de escola pública, que depois de muitas reuniões com os professores conseguiu reformular a proposta pedagógica do colégio e melhorar a qualidade das aulas. Além disso, investiu um bom dinheiro para pintar as paredes e montar uma sala de informática, coisa que há muito tempo os alunos estavam pedindo. O problema é que a diretora não conseguiu comprometer a comunidade com a melhoria da escola. Pelo contrário: os muros já estão pichados e o laboratório teve que ser fechado porque depois de uma semana roubaram os equipamentos.

Um grupo de jovens da periferia de uma capital brasileira é outro caso exemplar. Decididos a fazer um projeto social na comunidade, eles viram sua ideia se desfazer pouco a pouco. Alguns pais acharam meio absurda essa ideia de trabalhar sem ganhar dinheiro. Os amigos e colegas, da rua e da escola, começaram a fazer piada. O grupo até tentou envolver outros jovens mas não conseguiu.

Associações de bairro que não conseguem tirar os moradores de casa. ONGs que fecham as portas por falta de doadores. Sindicatos que não conseguem formar chapas para as eleições de diretoria. Enfim, poderíamos citar um sem número de casos como esses, em que a vontade de fazer mudanças e melhorar o país esbarra na falta de vontade de outras pessoas.

A saída, ao contrário do que muita gente faz, não é desistir de envolver os outros e ficar praguejando aos quatro ventos que “esse povo não quer nada com nada”. Por mais competente e bem intencionado que seja, ninguém consegue resolver nada sozinho. Problemas sociais são complexos e demandam soluções coletivas. Aquela história de que sem todos pelo Brasil não haverá Brasil para todos é a mais pura verdade.

Por isso, ainda que as dificuldades sejam grandes, cada organização da sociedade civil, cada empresa, cada prefeitura e secretaria, cada escola, cada grupo de jovem brasileiro, enfim, cada pessoa que despertou para o exercício da participação social, além de fazer a sua parte, precisa “acordar” outras pessoas para a construção de um país melhor e mais justo.

Uma das maneiras mais eficientes de despertar as pessoas e promover a sua participação é a mobilização social, ferramenta que está ao alcance de todos e tem um papel fundamental na superação da cultura do “porque aqui é assim”.

Um paradigma ampliado sobre mobilização social

A palavra mobilização, quando entra pelos nossos ouvidos, logo faz surgir da memória aqueles episódios de manifestações públicas, com uma multidão nas ruas, portando faixas e bandeiras, cantando hinos e gritando palavras de ordem.

Passeatas e acontecimentos similares são tão importantes que é até difícil conceber um processo de mobilização sem eles. Mas para entendermos a importância da mobilização social e aproveitarmos todo o seu potencial como estratégia de construção da democracia nesse momento da história brasileira, a primeira coisa que precisamos fazer é ir além dessa ideia, abrindo nossa cabeça para um jeito ampliado de pensar sobre o assunto:

1) Mobilização é evento, mas também é processo.
Muitas pessoas conscientes e com vontade de fazer alguma coisa não arregaçam as mangas ou desistem de participar porque se sentem meio isoladas, falando sozinhas. Saber que outras pessoas estão querendo o mesmo que nós, experimentando os mesmos sucessos e fracassos, dá mais segurança para tomar uma iniciativa e motivação para continuar participando.

Os eventos e as manifestações públicas têm um papel muito importante para criar esse sentimento de que todos estamos no mesmo barco. E, além disso, essas reuniões entre as pessoas, seja na praça pública, num ginásio ou numa sala de aula, servem também para celebrar conquistas e trocar informações.

Acontece que mesmo um conjunto de eventos, seminários, oficinas, gincanas e passeatas não equivale a um processo de mobilização. Depois que as pessoas saem de uma passeata e voltam para as suas casas e para o seu trabalho, a mobilização precisa continuar acontecendo. Caso contrário, os resultados dos eventos podem se perder no cotidiano.

2) Mobilização é quantidade, mas também é qualidade.
Se tentar, você não vai ter muita dificuldade em quebrar uma pequena vareta de madeira com as mãos. Mas se você fizer um maço de 50 varetas a tarefa certamente vai ficar mais difícil.

Juntar muita gente (quanto mais melhor!) é fundamental para gerar mudanças sociais. Com bastante gente o movimento fica mais sólido e consistente. É aquela velha história: a união faz a força, uma andorinha só não faz verão, unidos venceremos…

Um dos papéis da mobilização é fazer muita gente participar. Mas ao mesmo tempo, devemos considerar que “fazer parte” não é o mesmo que “tomar parte”. E que “ser parte”, por sua vez, representa um tipo de envolvimento ainda mais profundo.

“Fazemos parte da população do Brasil, mas não tomamos parte nas decisões importantes”.

“José toma parte das decisões, mas não se sente parte do grupo”.

Assim, a prova de fogo da mobilização não é só quantas pessoas participam, mas também como elas estão envolvidas. Às vezes um grupo pequeno, mas com pessoas altamente comprometidas, é muito mais eficiente do que outro com centenas de desinteressados.

3) Mobilização é reivindicação, mas também é projeto de futuro.
Pedir o impeachment do presidente, como aconteceu em 1992, ou exigir eleições diretas, como aconteceu em 84, são exemplos de um exercício cívico, em muitos sentidos pouco presente na sociedade brasileira, que deve ser amplamente incentivado e valorizado num processo de mobilização.

No entanto, apesar de serem fundamentais, as reivindicações não sustentam um processo efetivo de mudança. E por isso, é fundamental que além das metas de curto prazo, todo processo de mobilização seja pautado também pelo alcance de objetivos de longo prazo e pela construção de um projeto de futuro.

4) Mobilização é paixão, mas também é razão.
O educador colombiano Bernardo Toro costuma dizer que mobilizar é “convocar vontades”. E que, neste sentido, participar de um processo de mobilização é um ato de paixão. Sem dúvida, deve haver um vínculo emocional e em certo ponto até afetivo das pessoas com o movimento, seus participantes e sua causa.

Mas o próprio Toro alerta para o fato de que a mobilização é também um ato de razão, na medida em que consciências, e não somente vontades, devem ser mobilizadas. Sentir que a participação é importante é fundamental. Mas é necessário que as pessoas saibam também porque e para que participam.

5) Mobilização é comunicado, mas também é comunicação.
Um sujeito distribui panfletos na esquina. Cartazes são colados nos ônibus, no metrô e nos postes. Um outdoor convoca a população… esses são sem dúvida elementos imprescindíveis a um processo de mobilização.

A mobilização, no entanto, não se confunde com comunicados, nem com propaganda ou divulgação. Ela exige ações de comunicação em seu sentido mais amplo, através das relações interpessoais, do diálogo e do bate papo. Muitas vezes é no dia a dia, no corpo a corpo, que as pessoas são mobilizadas.

6) Mobilização é heroísmo, mas também é cotidiano.
Pessoas que se dispõem a espreitar-se pela fumaça das bombas de gás lacrimogêneo ou se colocam na frente de tanques de guerra em nome de uma causa são muito bem vindas a um movimento. Este tipo de atitude demonstra um envolvimento e uma disposição de nível diferenciado e que, guardados os excessos, podem ser muito positivos para gerar as mudanças que o processo de mobilização pretende alcançar.

É preciso considerar, no entanto, que nem toda pessoa disposta a contribuir e participar de um processo de mudança está disposta a tomar esse tipo de atitude e correr esses riscos. Por isso, um processo de mobilização se sustenta pela atuação das pessoas em seu dia a dia, em seu cotidiano. Só assim as mudanças serão efetivamente asseguradas a longo prazo.

Mas afinal, o que é mobilização social?

Abrindo um dicionário encontramos dois significados para a palavra “mobilizar”: “1. Dar movimento a; movimentar; 2. Apelar para os serviços de alguém”.

Mais do que uma sutileza semântica, a diferença entre esses significados é tão importante que pode afetar profundamente o caráter e os resultados de um processo de mobilização social.

Um processo de mobilização não acontece espontaneamente, do nada. Ele é fruto da iniciativa de alguém. Alguém que, indignado diante de algum fato, decide descruzar os braços e fazer alguma coisa. Além de indignação, as pessoas, grupos ou organizações que começam uma mobilização (e que são chamados pelo Bernardo Toro de “produtores sociais”) também carregam consigo muito bom senso: o produtor social sabe que não pode resolver nada sozinho. E é por isso que se dispõe a com- partilhar suas inquietações e seus sonhos com outras pessoas.

Este encontro entre o produtor social e as outras pessoas, a comunidade, está na gênese de todo processo de mobilização. E neste momento é que a escolha por uma ou outra definição do dicionário pode fazer toda a diferença.

Para fazer alguma coisa que queremos, muitas vezes precisamos “mobilizar” recursos. E este é um pouco do sentido da segunda definição: “apelar para os serviços de alguém” significa conseguir gente para fazer o que queremos, para viabilizar as nossas ideias e os nossos sonhos.

Mas acontece que as pessoas têm vontade própria, têm seus próprios sonhos. E melhor do que chamar os outros para viabilizar o “nosso” sonho, é construir um sonho que possa ser de todos. E este é um pouco do sentido da primeira definição.

Enquanto “apelar para os serviços” de alguém reforça a cultura da adesão, “dar movimento” serve para criar uma cultura de participação, em que as pessoas são trata- das como sujeitos, e não como recursos para viabilizar a vontade de quem quer que seja, por mais legítima e bem intencionada que seja essa vontade.

Bom, se vivemos num país que passa por um momento de mudança em que um dos principais desafios é justamente a criação de uma cultura de participação, fica evidente qual a definição mais adequada para pensar e fazer mobilização social, não é mesmo?

No entanto, apesar de iluminar uma direção e explicitar uma escolha ética, dizer que mobilizar é “dar movimento” não explica muita coisa ainda. O que de fato significa dar movimento?

Bom, para isso, vamos precisar entender 3 elementos fundamentais de todo movimento social: o empoderamento, a irradiação e a convergência.

O empoderamento

Lá na Grécia Antiga já circulava a ideia de que os problemas e as coisas boas que existem na nossa sociedade não são obra dos deuses. A vida em sociedade é obra dos homens e das mulheres que formam a sociedade.

Isso quer dizer que, seja pela ação ou pela omissão, todos nós somos sujeitos da história, e não meros espectadores. Como já dizia Paulo Freire na década de 60, “o homem é, por natureza, um ser eminente- mente transformador. Não é a acomodação, e sim a capacidade de transformar a realidade que caracteriza o modo de ser do homem no mundo”.

Esse potencial de transformação é como uma chama quente que todo ser humano carrega dentro de si. Empoderar significa dar vigor a essa chama, essa energia que a história e as circunstâncias às vezes conseguem enfraquecer.

O empoderamento, portanto, é a base de todo processo de mobilização social. Empoderar significa promover a iniciativa e a participação das pessoas. Significa tirar das mãos de poucos e colocar nas mãos de muitos o poder de decidir os rumos da nossa sociedade.

A irradiação

A raiz da palavra empoderamento vem do latim potere, que significa “energia”. Portanto, quando falamos de empoderamento, no sentido de desconcentrar o poder de decisão, estamos falando em desconcentrar energia.

A física nos ensina que energia concentrada é um perigo, pode explodir a qualquer hora (pense na panela de pressão!). Mas energia circulando gera vida, mudança e se espalha pelo ambiente.

Num processo de mobilização, essa ideia é fundamental. O movimento precisa se espalhar, irradiar. E irradiar significa pelo menos 3 coisas:

a) Abrangência quantitativa, ou seja, que cada vez mais gente (centenas, milhares, milhões de pessoas) desperte para o exercício da participação social.

b) Pluralidade, ou seja, que não basta só ter muitas pessoas. É preciso que o movimento se espalhe envolvendo pessoas diferentes. Afinal, a sociedade é formada por pessoas diferentes. E os problemas sociais, que são de todos, devem ser resolvidos por todos. Assim, a participação de todos os setores sociais (poder público, sociedade civil e setor privado), de crianças, jovens e adultos, de mulheres e homens, negros, brancos e gente de todas as etnias tende a enriquecer e dar mais efetividade a qualquer movimento.

c) Organização social, ou seja, que à medi- da que cada vez mais e diferentes pessoas aderem ao movimento, o tecido social que vai se formando deve ficar cada vez mais resistente e forte. A criação de redes, fóruns e organizações muitas vezes serve para isso.

A convergência

Ter muitas e diferentes pessoas altamente engajadas participando de um movimento é muito importante. Mas também pode ser um problema se cada um ficar puxando para o seu lado, defendo interesses próprios.

Por isso, outro elemento fundamental de todo movimento social é a convergência de esforços em torno de um propósito comum. Ou seja, é fundamental que as pessoas, apesar de suas diferenças, sejam capazes de definir e perseguir objetivos coletivos, cada um do seu jeito, mas todos no mesmo barco, navegando na mesma direção.

Para conseguir a convergência, precisamos ser capazes de responder para nós mesmos e para as pessoas que pretendemos mobilizar uma pergunta muito importante: onde queremos chegar com essa história toda?

Existem 3 conceitos que podem nos ajudar a refletir sobre esse questionamento: o imaginário convocante, a ideia força e as metas mobilizadoras.

a) O imaginário convocante
No Nordeste, em época de São João, é possível sentir no ar o cheiro de festa e devoção que toma conta das cidades. Em especial para os adolescentes, essa é a época das quadrilhas e do forró de pé de serra. Neste clima, certa vez um grupo de jovens estava reunido na praça de uma pequena cidade no interior do Ceará. Parados, cala- dos, com os olhos arregalados e ouvidos atentos eles tentavam descobrir de que município vizinho vinha o som grave e distante da zabumba que denunciava o arrasta-pé que estava para começar.

Mesmo sem saber ao certo de onde vinha o som, decidiram encarar uma caminhada de mais de 4 léguas atrás de um pouco de festa, confiando que o som da zabumba os guiaria na direção correta. E de fato guiou. Esse “causo” real, ouvido no Ceará, expressa metaforicamente o sentido do conceito de imaginário convocante, cunhado pelo educa- dor colombiano Bernardo Toro.

Assim como o som da zabumba para os adolescentes, o imaginário convocante é um horizonte atrativo, algo que, apesar da distância, motiva as pessoas e dá sentido à sua participação num movimento.

O imaginário proposto por Betinho na Ação da Cidadania, por exemplo, era ter “uma sociedade que pratica a solidariedade”.

O Gandhi, lá na Índia, propôs a todos o sonho de “um mundo mais justo e pacífico”.

b) A ideia-força
A ideia-força é como uma placa no meio do caminho dos adolescentes cearenses ansiosos por uma noite de diversão: assim como o som da zabumba (o imaginário convocante) ela conduz à festa. A diferença é que a ideia- força fornece um tipo de orientação mais objetivo e concreto do que o imaginário.

Num processo de mobilização, a ideia-força, conceito criado por Rose Marie Inojosa, é “um problema social relevante, passível de intervenção solidária”.

Retomando os casos citados anteriormente, temos alguns exemplos ilustrativos. A ideia- força proposta pela Ação da Cidadania era “vencer a fome e a miséria no Brasil”. Para Betinho, assumindo esse desafio, o povo brasileiro estaria caminhando na direção de uma sociedade proativa e solidária, que era o imaginário convocante do movimento.

A ideia-força proposta por Gandhi era “conquistar de forma pacífica a independência da Índia”. Ele acreditava que, se os indianos e ingleses fossem capazes de resolver suas diferenças de forma pacífica e a Índia voltas- se a ser soberana, teria sido dado um passo importante na direção de um mundo melhor.

c) As metas mobilizadoras
As metas mobilizadoras, por sua vez, orientam a participação de maneira ainda mais concreta do que a ideia-força. São objetivos de curto prazo que traduzem o imaginário convocante e a ideia força para o dia a dia dos cidadãos, desdobrando-os no tempo e no espaço.

Na Ação da Cidadania, por exemplo, foi pro- posto que “nenhuma família passasse fome no Natal de 1993”.
Depois de uma marcha de vários dias pela Índia, Gandhi chegou ao mar acompanhado de uma multidão que tinha um objetivo muito claro na cabeça: “não pagar mais os tributos ingleses sobre o sal indiano”. Nesse episódio, ficou famoso o gesto de Gandhi de pegar um punhado de sal do chão e erguê-lo para todos verem que dali em diante, se os indianos quisessem, volta- riam a comercializar o sal livremente.

Como podemos notar, as metas mobilizadoras apontam desafios tangíveis, práticos e objetivos para os cidadãos que compartilham o imaginário convocante.

Para entender melhor a complementaridade que existe entre esses conceitos, pensemos num iceberg… as metas mobilizadoras são a ponta visível. Elas são as ações concretas que em geral aparecem para as pessoas.

Betinho nos deu uma lição sobre isso com a Ação da Cidadania. Como ele próprio disse numa entrevista: “A fome é um problema concreto, imediato. E foi por aí que as pessoas encontraram uma forma mais imediata de contribuir. Bastava um tíquete-refeição, um quilo de arroz, uma lata de óleo e já estavam colaborando. Assim, a doação de comida se generalizou, com a população se organizando e se manifestando. Não era uma adesão abstrata. Era uma ação concreta”.

Mas ao mesmo tempo, como vimos, o movimento tinha um horizonte mais amplo. E esse é um dos motivos pelos quais muitas iniciativas que surgiram naquela época continuam existindo até hoje.

Voltando ao nosso iceberg, a conclusão é que, se as metas não estiverem sustentadas por uma base sólida, ou seja, uma ideia- força e um imaginário consistentes, quando forem alcançados os objetivos de curto prazo o movimento tende a afundar, não se sustenta.

Uma coisa completa a outra: sem um imaginário convocante o movimento vira um ativismo passageiro. Sem metas mobilizadoras, o movimento pode começar a ser percebido pela comunidade como um idealismo impraticável, gerando angústia e frustração nas pessoas.

Pra resumir, mobilização social é…

Existem muitas formas de definir o que é mobilização social. Mas no nosso caso, à luz do paradigma ampliado que discutimos, coerentes com o fundamento ético adotado e entendendo os elementos de um movi- mento social, podemos dizer que:

A Mobilização Social é um processo educativo que promove a participação (empoderamento) de muitas e diferentes pessoas (irradiação) em torno de um propósito comum (convergência).

PROCESSO: A mobilização social não se limita às manifestações públicas, às passeas, às convocações em praça pública, ainda que eventos deste tipo tenham um papel muito importante.

EDUCATIVO: Ninguém nasce um cidadão atuante ou um ativista. Mas a partir de experiências concretas no seu bairro, na sua comunidade, na sua cidade, as pessoas vão aprendendo e incorporando cada vez mais a prática da participação social às suas vi- das. Cristovam Buarque costuma até dizer que “mais difícil do que botar o povo na rua é levá-lo de volta pra casa”.

EMPODERAMENTO: Empoderar significa promover a iniciativa das pessoas, acreditando que elas são capazes de resolver os problemas que afetam diretamente suas vidas.

IRRADIAÇÃO: A mobilização gera um movimento que vai envolvendo cada vez mais (quantidade) e diferentes (pluralidade) pessoas de um jeito organizado.

CONVERGÊNCIA: As mudanças acontecem de fato se a sociedade se articular em torno de um projeto de futuro coletivo. Para isso é fundamental conciliar as ações de curto prazo com uma visão de longo prazo.

Palavras finais

Se um dia acontecer de um índio descer de uma estrela colorida e brilhante no coração da América do Sul, como preconiza o Caetano Veloso numa de suas músicas, devemos ser capazes de mostrar a ele um país diferente do que temos hoje.

Um país em que a desigualdade não é uma coisa óbvia e as pessoas têm muito mais a dizer sobre ela do que simplesmente “porque aqui é assim”.

A mobilização social é um modo de construir a democracia e a participação. É um modo de construir um país em que todos promovem uma vida digna para todos.

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