Juventude desperta para a política

img_noticia_gO ano de 2004 foi palco de eleições municipais em todo o Brasil. A GYAN – Global Youth Action Network, parceira da Aracati no projeto Juventude em Debate, lançou a Campanha, que premiou organizações juvenis que tivessem as melhores propostas de debates com os candidatos à prefeitura. A vencedora da campanha foi a ong Fênix Cultural, de Porto Alegre.

Priscilla Matos, uma das fundadoras da Fênix, conta que o debate do segundo turno foi capaz de despertar o interesse da juventude pela política. Depois do debate, Porto Alegre nunca mais foi a mesma. Mudaram os jovens, os movimentos sociais, mudaram os políticos. Priscilla também. Hoje ela expressa sua luta em poesias cheias de ritmo.

Priscilla Matos é jovem, ativista social, compositora e cantora de rap. Nos palcos, Priscilla atende por Fênix, nome artístico que adotou por identificar-se com o mito egípcio do grande pássaro que renasce das cinzas. Fênix é também o nome da ong de assessoria cultural que ela fundou com outras três mulheres negras para oficializar a batalha que cada uma já tinha pela educação racial e de gênero, pela geração de renda e pela produção independente da cultura Hip-hop. “Sempre me incomodei com questões sociais, com a violência policial, com o tráfico de drogas e com a visão que a mídia tem sobre isso tudo. Eu morava no miolo da periferia de Porto Alegre e sei que a história real não é a que sai nos jornais e na TV e que promove pavor nas pessoas. Despertei para o Rap como um meio de falar das questões sociais. Eu queria falar da minha realidade de exclusão por ser mulher, negra e pobre e percebi que tinha vocação para fazer as pessoas entenderem as mensagens. Freqüentei muitos movimentos sociais, ouvi tudo o que se falava e assim aprendi a não adotar a postura dos outros sem uma visão crítica pessoal, pois dentro da gente tem um princípio só seu, que é intocável”.

Ao debate

Pesquisando sobre projetos sociais, Fênix descobriu a Campanha Brasileira para Participação Juvenil nas Eleições Municipais, promovida pela GYAN. “Se você quer melhorar sua vida, então tem que pensar em política, não apenas a partidária, mas a política social. Daí vai ver que até o imposto contido na cerveja é uma decisão política”, explica.

A idéia do debate era promover esse despertar em jovens de movimentos sociais, de periferias e negros e disponibilizar informações a todos. A proposta da Fênix Cultural era criar uma tenda de economia solidária para o dia do debate e levá-la para todo e qualquer evento que a Ong participasse. A tenda teria peças de artesanato, camisetas, bolsas, bonés e todo produto feito por grupos comunitários, além de jornais e folders de movimentos sociais. Manifestações culturais diversas também estavam previstas. Com essa ação, a Fênix Cultural queria agregar novos valores aos produtores sociais.

Pensamento estratégico

A Ong foi selecionada para a final da Campanha. No páreo, um grupo do movimento estudantil. E as agendas dos candidatos cada dia mais lotadas. Fênix e grupo estudantil resolveram se unir, para ganhar mais força e se envolverem ainda mais. A missão agora era convencer os candidatos que o debate com a juventude era necessário. “Os políticos perguntaram pra gente ‘por que vocês acham que o debate vai fazer a diferença? Por que é importante falar com a juventude, com o movimento Hip-hop, com os jovens negros?’ Foi muito difícil! Tivemos que pensar estrategicamente: era 2º turno, momento tenso, os candidatos queriam bater o adversário, votos e exposição na mídia. O debate era uma ótima oportunidade”. O auditório do Instituto de Educação de Porto Alegre lotou. Cerca 300 pessoas mandando perguntas, expressando apoio, desaprovação e circulando pela tenda da economia solidária.

Os frutos do debate

img_noticia_02_g“Para a Fênix Cultural, a experiência do debate deu mais uma prova de que a gente estava fazendo a história acontecer, fazendo as pessoas pensarem, discutirem e criarem poder de ação. O debate fez o movimento Hip-hop se unir, se expandir e se popularizar graças à conversa inédita da massa do movimento com o governo. Pudemos mostrar que o Hip-hop está presente nas questões políticas de interesse da população”, conta Fênix. Quando o prefeito assumiu, chamou os representantes do Hip-hop para discutir os encaminhamentos já feitos com o outro candidato e as novas propostas do movimento para a prefeitura.

Atenta ao modo como líderes comunitários, políticos e pessoas comuns se comunicam, Fênix aprendeu que o uso estratégico da linguagem é o canal. Quando solta voz nas canções de Rap que escreve, ela quer tocar o coração das pessoas e despertá-las para aquele princípio mágico que habita o interior de cada um. “Hoje eu sei o que quero dizer nas minhas músicas. Valorizo as mulheres e os negros, acho que cada um tem que encontrar o seu papel e o seu valor”.

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