Política sem gravata

img_noticia_04_gA cada nova edição do boletim do Interagir sobre políticas públicas para a juventude, “Falando em Política”, a equipe se reúne para escolher as pautas. Esse é o momento em que a equipe troca informações sobre acontecimentos recentes, fatos que estão em destaque ou eventos que acontecerão em breve. A partir da discussão, a equipe prioriza as pautas mais interessantes para o boletim. No boletim de agosto de 2006, surgiu a pauta sobre a polêmica em torno da vinheta da MTV para as eleições “Prepare seu saco, ovos e tomates” e a reação do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE), expressa em nota oficial.

A vinheta da MTV afirmava: “De um lado, o governo sujo pela corrupção e hipocrisia. De outro, uma oposição pensando que todo mundo é idiota e não se lembra o que fizeram no governo”. A vinheta foi criticada pelo CONJUVE por meio de um manifesto, alegando que a veemência da peça não contribui de forma satisfatória para a superação dos problemas brasileiros. Além disso, a campanha da emissora estaria fazendo alusão a um mecanismo de participação controverso, o voto nulo.

Devido à grande repercussão em torno da peça publicitária e também pela controvérsia que ela gerou dentro da própria equipe do “Falando em Política”, decidimos nos reunir especificamente para conversar sobre a vinheta e suas conseqüências. O objetivo da conversa era levantar material para o “Falando em Política”, em vez de buscar um posicionamento. Afinal, as opiniões da equipe não são homogêneas e o boletim se apresenta como um informativo para que os leitores reflitam e cheguem a suas próprias conclusões.

Portanto, em um sábado, no Parque da Cidade de Brasília, sentamos por uma tarde e debatemos sobre o significado da campanha da emissora, a questão do voto nulo, a forma como são realizados os programas eleitorais e as diversas maneiras de se fazer política. A conversa fluiu livremente com as pessoas se posicionando, fazendo perguntas e relacionando o tema com outros acontecimentos. Mas, por que ficar só na conversa?

Pensando nisso e motivados pela pergunta da campanha da Convergência dos Grupos Autônomos “Seus sonhos cabem nas urnas?”, escolhemos um local de grande circulação e gravamos depoimentos com os que lá passavam. Durante uma hora, cerca de 15 pessoas sentaram conosco e compartilharam, além dos seus sonhos, os desejos para uma política diferente, para um país melhor e por mais honestidade entre aqueles que fazem a política da Esplanada. Tal como na nossa roda de diálogo, as conversas seguiram vários caminhos. Foram apontadas soluções para a situação que se vê atualmente: como escolher os candidatos, o que cada pessoa faz e pode fazer para começar a mudar a política e até mesmo questionamentos sobre a obrigatoriedade do voto.

A intervenção resultou em um vídeo de 20 minutos com variadas opiniões. Com o vídeo editado, decidimos incluí-lo no “Primeiro Contato”, uma roda com 15 a 20 pessoas e 2 ou 3 pessoas com experiência em determinado tema para estimular questionamentos, comentários, sugestões e opiniões. Chamamos Clóvis de Souza, jovem e cientista político do Grupo Interagir, que acredita no sistema político aliado à necessidade da participação direta dos cidadãos. Convidamos também Leila Saraiva, estudante de Ciências Sociais e jovem participante da campanha “Meus sonhos não cabem nas urnas: existe política além do voto”, da Convergência dos Grupos Autônomos do DF. Leila defendeu a necessidade de uma participação mais direta da população e a idéia de que a política representativa, por vezes, afasta as pessoas dessa ação direta.

Para convidar o público a participar do “Primeiro Contato”, distribuímos gravatas e questionamos se afinal, é preciso usar gravata para falar em política?. Junto com esse convite havia uma folha que ensinava a dar nó na gravata e uma outra pergunta: “É preciso votar para falar em política?”.

No dia 16 de setembro, realizamos o “Primeiro Contato”. Marcel Taminato, antropólogo, facilitou o debate com perguntas como “O voto começa ou termina na urna?”. Dessa forma, discutimos o voto, o voto nulo, a política cotidiana, a organização do sistema e nossa ação no mesmo. Durante o debate, passamos o vídeo da intervenção para estimular ainda mais a conversa.

Afinal, quais são os frutos dessas ações e reflexões?

img_noticia_03_gNo parque da Cidade, os temas mais debatidos foram a descrença na política (muito presente atualmente), o voto nulo como uma ação consciente de fazer política, o marketing e os programas eleitorais, outras formas de se fazer política e a necessidade de buscar novas linguagens e formas de expressão para falar em política. No debate, não chegamos a uma opinião fechada e acabada, mas percebemos que a vinheta da MTV e o manifesto do CONJUVE trouxeram à tona várias indagações.

Poderia a campanha veiculada pela MTV ser um manifesto em favor do voto nulo e da negação da política? Ou seria um alerta para o voto consciente, uma convocação a uma atitude mais crítica por parte da juventude? Por incrível que pareça, as duas respostas podem estar corretas. Afinal, as defesas e críticas à vinheta assentam-se em uma base de conceitos e percepções comuns? A discordância não poderia estar fundada em concepções distintas do que vem a ser democracia? Ou talvez seriam, mais profundamente, produto de diferentes visões do que vem a ser política e em que espaços é, ou deve ser, praticada? Muitas são as perguntas, cujas respostas são ainda mais pontos de interrogação, mas elas abrem muitas portas para pensarmos a política e nos posicionarmos criticamente em relação aos acontecimentos.

A polêmica leva a uma conclusão: a necessidade do debate e da ampliação dos espaços a ele destinados. Afinal, os diferentes conceitos de política interferem diretamente na interpretação dos acontecimentos políticos a nossa volta. Não é diferente com a vinheta da MTV e seus desdobramentos Assim, podemos entendê-la tanto como uma negação da política e apologia à apatia, quanto como uma afirmação da política e convocação para o agir.

Do diálogo inicial, tivemos três resultados concretos: uma matéria no “Falando em Política” (boletim com cerca de 2000 leitores em todo Brasil), uma intervenção para levar, cara-a-cara, o diálogo além da nossa roda e por fim, o vídeo com as entrevistas da intervenção, que pode ser exibido em outros lugares para continuarmos sempre dialogando sobre as várias formas de pensar e fazer política.

Durante o “Primeiro Contato”, debatemos acerca da democracia representativa e participativa. Falamos novamente da necessidade da política cotidiana e das diferentes formas de se fazer política. Conversamos também sobre o voto nulo e a relação da sociedade com as urnas. Também pensamos nas possibilidades de transformação da sociedade, bem como na sociedade que queremos. Como seria essa sociedade que queremos? Que tecnologia e consumo seriam possíveis e humanos para essa sociedade? Como seriam essas novas relações entre as pessoas? Seria uma nova lógica e uma nova ética?

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